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Criadores compulsivos de metáforas
A vida a dois, principalmente quando ela está começando, tem umas coisas engraçadas. Numa noite gelada de agosto, por exemplo, eu cheguei tarde do trabalho e me dirigi ao nosso quarto de casal. Ainda no escuro, cocei a cabeça ao ver uma figura pequenina embrulhada num cobertor idem, em cima da cama. Como a gente (ainda) não tem filhos, aquilo era no mínimo esquisito. Apertei o interruptor e desfiz o mistério: tratava-se de ninguém menos que o famoso Garfield, em versão pelúcia. Para explicar o fato, minha esposa saiu-se com esta: "É que se eu não cobri-lo ele vai sentir frio a noite inteira!".
Havia mais por trás desse enigma. Descobri que, noite após noite, minha consorte repetia o ritual com todos os seus bichinhos de pelúcia (que incluem também um golfinho e um orangotango de Bornéu): embrulhava os ditos cujos em um cobertor e lhes dava um beijo de boa-noite. Como é que se explica uma coisa dessas? Uma mulher adulta, afinal de contas, deveria saber que pedaços de pano e plástico não sentem frio nem dormem melhor depois de ganhar um beijinho.
Para ser justo, a minha surpresa só pode ter sido o resultado de uma cegueira temporária. Poder-se-ia muito bem argumentar que comportamentos desse tipo são a regra, e não a exceção, entre os seres humanos como os conhecemos.
Não acredita, hein? Pois tente se lembrar das vezes em que você despejou uma enxurrada de palavrões em cima de uma TV ou de um carro "rebeldes", que não funcionam. Ou de expressões como "sol inclemente", "vento calmo", "árvore acolhedora". Ou, só para voltarmos ao nosso ponto de partida, o que faz uma criança chamar uma trouxinha de pelúcia de "golfinho" ou "girafa" com tanta convicção, quando sabemos que girafas de verdade guardam só uma semelhança remota e metafórica com o objeto em questão?
O fato é irrefutável: nossa mente gosta de misturar as estações, de fundir o social e o natural, o vivo e o inanimado, o real e o imaginário. E o engraçado é que, aparentemente, nós também temos uma capacidade inata muito afiada de discernir entre os domínios, quando nos convém. Correndo o inevitável risco de simplificar demais as coisas, eu ousaria dizer que as pessoas mais inteligentes e criativas são justamente as capazes de tomar partido dessas duas propriedades da mente: o discernimento entre domínios do mundo e a capacidade de ver relações até então impensáveis entre eles - o que a gente chamaria de analogia ou metáfora por excelência.
Acontece que existem indicações seguras de que essa nossa compulsão por metáforas - vamos chamá-la de fluidez cognitiva, como faz o arqueólogo britânico Steven Mithen - foi fundamental para que nos tornássemos os senhores da Terra. Temos, inclusive, boa probabilidade de datar o aparecimento dessa faculdade - com aquele bom, velho e inevitável problema da margem de erro: certamente não antes de 80 mil anos atrás, e não depois de 35 mil anos atrás. Já explico.
Até uns 100 mil anos antes do presente, embora a Terra já estivesse povoada por criaturas com capacidade cerebral virtualmente idêntica à nossa, o comportamento desses ancestrais (entre eles os neandertais e os primeiros Homo sapiens) não tinha quase nada a ver com o nosso. Não há sinal de arte, adornos corporais, túmulos para os mortos ou qualquer coisa que sugerisse uma capacidade de pensar por símbolos.
Também não há indícios de inovação tecnológica de qualquer espécie, muito menos de diferenças significativas entre estilos regionais de fabricar ferramentas. A mesma série chatíssima e interminável de machados de pedra, bem-feitos mas estereotipados, se estende do sul da África ao Oriente Médio e à Península Ibérica. E, falando em pedra, essa é, ao lado da madeira, a única matéria-prima que ocorria aos nossos ancestrais utilizar. Chifre, osso, marfim - tudo isso ia para o lixo, e a máxima complexidade de uma ferramenta era empregar duas peças, frouxamente unidas.
De repente, porém, a começar por algumas contas de colar feitas com conchas na África do Sul, surgem os primeiros adornos. Ferramentas de marfim, finamente trabalhadas, e uma nova forma de trabalhar a pedra, em que várias peças se unem para um propósito específico. E tudo culmina, há pouco mais de 30 mil anos, com a invenção da pintura e da escultura nas cavernas da Europa - onde seres teriantrópicos (meio animais e meio humanos) são representados, não muito diferentes dos centauros ou esfinges da mitologia grega.
Coincidência ou não, é nesse momento que os neandertais deixam de existir e nós viramos os únicos atores que sobraram no palco. O que Steven Mithen e outros estudiosos da evolução humana propõem é que essa é a hora da explosão da fluidez cognitiva. Os neandertais provavelmente eram caçadores competentes (sabiam raciocinar sobre o comportamento animal) e bons artesãos (suas lanças eram eficazes). Mas jamais lhes ocorreria misturar o mundo vivo com o mundo da técnica para criar um mortífero arpão de marfim.
Bichos para eles eram comida, não matéria-prima. Da mesma forma, eles provavelmente tinham uma organização social elaborada, mas nunca seriam capazes de usar uma mistura de humano e animal para criar um deus ou totem que uniria a comunidade em torno de um símbolo cultural comum, poderoso e indestrutível. Com nossos ancestrais, no entanto, a coisa era diferente.
O mais engraçado é que talvez nenhuma mudança radical na estrutura da nossa mente tenha sido necessária para que essa revolução acontecesse. Se os sistemas mentais usados para raciocinar sobre os vários domínios do mundo já estivessem no lugar certo - e esse parece ter sido o caso dos neandertais -, bastaria que "buracos na parede" de cada um deles surgissem. Como uma represa cujo dique se rompeu, as águas fluiriam - e a primeira metáfora nasceria.
E eis que o primeiro homem (ou mulher) caminharia sobre a Terra. Metafórico, analógico, criativo - e carinhosamente agarrado ao seu mamute de pelúcia.