Mistério de muitos braços
A imagem do livro de zoologia não passava de um desenho em preto e branco, mas ficou grudada na minha memória. A ilustração mostrava um polvo-comum (
Octopus vulgaris), que parecia imenso, usando seus tentáculos para tirar a tampa de um garrafão e arrancar lá de dentro um daqueles navios em miniatura ultradetalhados que os fãs de tecnologia naval gostam de montar. Parecia chocante que um bicho que nem ao mesmo tinha ossos fosse capaz de entender o conceito de “tampa” (“Rá! Então isso aqui tapa a garrafa”, deve ter pensado o polvo) e conseguisse arrancá-la, aparentemente, só de brincadeira.
Algumas décadas se passaram desde que vi o famigerado desenho pela primeira vez, e parece que o espanto causado pelos moluscos com muitas pernas – polvos, lulas, sibas e assemelhados – anda ganhando cada vez mais razões de ser. O mais frustrante – ou o mais legal, dependendo do ponto de vista – é que, embora os cientistas estejam descobrindo mais e mais detalhes sobre como esses bichos funcionam, os mistérios ainda se acumulam.
Uma série de capacidades impressionantes, que fazem deles os Einsteins entre os invertebrados, ainda precisam ser elucidadas para valer: curiosidade, maquiavelismo, uma possível “linguagem de sinais” baseada em mudanças da cor do próprio corpo e até senso de humor. A recompensa para quem conseguir entender esses comportamentos é das grandes: a chave para explicar por que, afinal de contas, a inteligência evolui.
Em primeiro lugar, vamos ser justos: não dá para acusar os biólogos de incompetência quando eles apanham para “quebrar o código” de polvos, lulas e companhia. Eles simplesmente são alienígenas demais: os termos de comparação que permitem que a gente pelo menos ache que entende criaturas como cães e cavalos não valem para os cefalópodes, como são chamados esses bichos aquáticos.
Primeiro o parecidoTalvez valha a pena, mesmo assim, tentar começar com o que é parecido e só depois partir para a doideira. Os olhos, por exemplo: fora a pupila bizarra em forma de W, os de uma lula ou de um polvo funcionam de forma impressionantemente parecida com os nossos e são quase tão bons quanto eles, embora tenham evoluído de forma independente. (Informação básica para fazer o queixo cair: a linhagem de animais que deu origem aos humanos se separou da que gerou os cefalópodes há cerca de 1 bilhão de anos.)
O cérebro dos bichos também não é de se jogar fora. Em relação ao peso do corpo, são os maiores miolos entre os invertebrados, e proporcionalmente mais avantajados que os de anfíbios e répteis, embora ainda percam da maioria dos mamíferos. São órgãos anatomicamente complexos, com texturas e rugosidades para todo lado – coisas que costumam ser a marca de processamento neural sofisticado, do tipo que ocorre no cérebro cheio de dobrinhas dos humanos.
E aqui começa a loucura, nobre leitor. Aqueles olhos tão sedutoramente familiares não enxergam cores, mas são capazes de detectar o plano da luz polarizada – uma propriedade do espectro eletromagnético que os torna muito mais sensíveis a contrastes do que nós. Quanto ao cérebro, sua massa de neurônios circunda o esôfago dos bichos. (Imagine que delícia seria se os seus miolos estivessem logo abaixo da sua garganta. “Dá um trabalho do cão”, diriam os polvos: volta e meia os cientistas acham espinhas de peixe enfiadas no cérebro deles.)
Para sorte do cérebro dos cefalópodes, não é ele que faz todo o trabalho. Para solucionar o problema de controle dos muitos tentáculos, que os ajudam a manipular objetos com precisão, capturar presas e muito mais, os bichos simplesmente deslocaram parte de sua capacidade de processamento do centro cerebral para esses membros. Estudos recentes indicam que o cérebro só dá indicações gerais para o tentáculo: é o membro que decide “sozinho” os passos finais e cruciais de várias ações.
O troféu de bizarrice número um, porém, certamente vai para o funcionamento da pele dos cefalópodes. A maior parte deles foi agraciada pela evolução com órgãos conhecidos como cromatóforos (algo como “carregadores de cor”, em grego). Milhares ou até milhões de cromatóforos, formados por sacos de pigmento vermelho, amarelo e marrom e fibras musculares, conseguem se retrair ou se estender em frações de segundo, mudando radicalmente a aparência do polvo ou lula em questão. Há registros de animais que mudaram de aparência mil vezes ao longo de apenas sete horas – quase uma apresentação de Powerpoint com “perninhas”.
Artistas do disfarce
A seqüência de imagens ao lado, envolvendo um polvo, dá uma idéia da mágica que esse sistema é capaz de realizar. É uma mão na roda para escapar de predadores e para armar uma tocaia contra possíveis presas. O grau de detalhamento possível é tamanho que as sibas (bicho famoso por causa de sua tinta, usada para fazer o corante de cor sépia) conseguem assumir vários padrões ao mesmo tempo. Digamos que sua cabeça esteja em cima de uma pedra esbranquiçada, o meio do corpo sobre um pedaço de coral mais escuro e a ponta sobre uma moita de algas. Baba de moça: ela simplesmente fica “listrada”, com cada pedaço do corpo parecido com o substrato mais próximo.
Ser uma apresentação de Powerpoint ambulante (o sonho de muito escritor de auto-ajuda por aí, imagino) teria outra vantagem óbvia: comunicação. Os dados a esse respeito ainda são poucos, mas parece que as sibas e lulas, bichos relativamente sociais (os polvos costumam ser solitários), conseguem usar as mudanças de aspecto pelo menos para anunciar seu sexo e seu estado emocional (agressivo ou pacífico) a companheiros de espécie.
Há relatos de um siba macho que usou, de um lado do corpo, o chamado “display de zebra intenso” – com listras fortes, indicando agressividade – para “falar” com outro macho, e uma coloração calma e amena diante de uma fêmea que se aproximava do outro lado do corpo. (É como se você conseguisse dizer “sai pra lá, rapaz!” com metade da boca e “olá, gatinha!”com a outra metade.) Pior: outras observações indicam disfarces enganosos, como os machos pequenos de siba que usam “roupa de mulher” para tentar não apanhar dos machos maiores. Funciona bem, menos quando o macho grandalhão resolve tentar acasalar com aquela “mocinha” tão simpática...
Essa capacidade de arquitetar o engano de um companheiro de espécie nos leva de volta ao debate sobre quão inteligentes essas criaturas podem ser. Outros indícios sugerem um tipo de mente pelo menos tão complexa quanto a de mamíferos e aves. Alguns polvos, por exemplo, parecem capazes de aprender comportamentos simplesmente observando companheiros fazerem a coisa em questão. Eles também seriam capazes de brincar: garrafas plásticas “dadas de presente” a polvos de aquários nem sempre são destruídas, mas às vezes ficam sendo sopradas para cá e para lá com o jato d’água que o bicho possui, quase como uma criança que fica fazendo uma bola quicar. E os cefalópodes aparentemente dormem – um comportamento que, em outros animais, ajuda a consolidar memórias e facilita o aprendizado.
Ao mesmo tempo, testes em laboratório muitas vezes parecem mostrar bichos curiosamente lerdos, ou pelo menos “de lua” – capazes de aprender um truque com facilidade para depois não repetir a brincadeira com sucesso. Alguns cientistas questionam a idéia de que bichos solitários como polvos sejam realmente capazes de algum aprendizado social. Seriam simplesmente temperamentais? “Talvez a grande questão seja: será que eu sou suficientemente inteligente para tentar descobrir o quão inteligentes eles são?”, brinca a bióloga americana Jean Boal, que estuda sibas.
De fato, talvez os cefalópodes sejam o nosso teste definitivo de compreensão do que significa ter um cérebro complexo. Se um dia dermos de cara com alguma forma de inteligência alienígena, não há razão para acreditar que a forma de pensar “deles” seja parecida com a nossa. Mesmo que não sejam verdadeiros gênios, lulas e polvos continuarão a nos dar pistas preciosas sobre como uma mente fundamentalmente diferente da nossa enfrenta os desafios de um ambiente e de um corpo complexos.
Pense nessas criaturas como um símbolo do que a evolução dos seres vivos significa: nós e eles estamos separados por uma profunda bifurcação na estrada da vida na Terra. Viemos de lugares diferentes e, por isso, os caminhos que usamos para chegar até aqui têm muito pouco a ver um com o outro. Mas aqui estamos: podemos nos olhar, olho no olho, com o mesmo brilho de curiosidade nas pupilas (redondas ou em forma de W, pouco importa.) Alguém duvida de que coisas ainda mais assombrosas nos esperam lá fora, num Universo do tamanho do nosso?