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Visões da Vida

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    Sexto sentido

    Qualquer um que já tenha visto um ornitorrinco (Ornithorhynchus anatinus), seja ao vivo, seja em filmes ou fotografias, costuma concordar que não dá pra ser mais esquisito que esse bicho. Se não tivesse a desagradável mania de se mexer e mostrar que é de verdade, seria mais fácil achar que ele é o produto de algum empalhador com senso de humor mórbido, que inventou de colar o bico de um pato e o rabo de um castor no corpo de algum animal peludo genérico. OK, deixemos o bicho ser bizarro. Mas sexto sentido? Aí já é demais.

    É demais, mas é verdade. Todos nós sabemos o que significa ver, ouvir, cheirar, sentir ou degustar, mas essa esquisitice australiana usa um sentido extra para navegar o ambiente aquático, de olhos, narinas e ouvidos fechados, quase como um Professor Xavier felpudo, como o retratou o artista Daniel Ricardo na imagem que abre esta coluna. O mais impressionante é que ele não está sozinho: uma multidão de outras espécies animais é capaz de truques parecidos, usando ferramentas desenvolvidas para a tarefa de forma independente. Como funciona esse sexto sentido? Uma dica: nunca deixe as pilhas do seu radinho perto de um ornitorrinco se você for ouvir o jogo do Tricolor no dia seguinte.

    Um time de pesquisadores australianos e alemães fez a experiência – enterrou algumas pilhas debaixo d’água, deixando-as invisíveis – e acabou presenciando um selvagem ataque antibateria logo depois. Acontece que aquele bico de pato (que, na verdade, é borrachudo ao toque) é um órgão de detecção de eletricidade à distância.

    Os ornitorrincos são caçadores de invertebrados subaquáticos que se escondem no leito de rios, e os nossos sentidos tradicionais não servem para muita coisa em meio ao lodo de um riacho. Mas o corpo de um pequeno caramujo, assim como o de bichos muito maiores, emite um campo elétrico fraquinho toda vez que ele usa seus músculos. Se os ornitorrincos fossem capazes de detectar esse campo elétrico, realmente não precisariam dos demais sentidos para achar sua presa. De fato, é o que parece: os bichos mergulham de olhos fechados, narinas e ouvidos selados, como se quisessem deixar de lado toda e qualquer informação irrelevante.

    É aqui que o comportamento e a neurobiologia desses estranhos mamíferos botadores de ovos se encontram. Apesar da postura zen debaixo d’água, eles não param de fazer movimentos característicos com o bico, quase como quem tenta ajustar uma antena de radinho de pilha em busca do programa desejado. O mapeamento do controle de movimentos e de informação sensorial no cérebro dos bichos dá outra pista da importância do bico: o espaço dedicado ao processamento de informação do órgão no cérebro é um despropósito, maior que todas as outras partes do corpo da criatura combinadas.

    E o que uma olhada mais atenta na estrutura do bico revela? Poros – poros para todo lado. Há receptores diretamente sensíveis a campos elétricos, que na verdade são glândulas modificadas, e outros que respondem a pressão mecânica, provavelmente parecidos com os que existem na pele humana e nos permitem sentir o toque de uma mão ou do vento. Os cientistas acham que os dois tipos de receptores funcionam em conjunto: enquanto os elétricos trazem uma informação do tipo “tem coisa viva por aqui”, os de pressão captam movimentos de nado de um pequeno camarão de água doce, por exemplo.

    A informação combinada poderia dar ao ornitorrinco caçador a posição da presa: bastaria que ele registrasse o campo elétrico (que, como a luz, viaja de forma quase instantânea) e depois o movimento da presa. O intervalo de tempo entre um e outro revelaria a distância aproximada do futuro jantar – meio como contar os segundos entre o relâmpago e o trovão para saber onde o raio caiu.

    É uma habilidade impressionante, mas outras pesquisas andam mostrando que o ornitorrinco é praticamente um amador entre as espécies com sexto sentido elétrico. A habilidade é relativamente comum entre vários tipos de peixe, como os tubarões, arraias, peixes-espada e peixes elétricos (muitos deles presentes na Amazônia e outros grandes rios tropicais).

    Entre os tubarões, por exemplo, o serviço de detecção elétrica é realizado por poros especializados conhecidos como ampolas de Lorenzini. Os canais das ampolas, repletos de uma espécie de gel condutor, levam a informação do campo elétrico biológico das presas para células detectoras especializadas, as quais, por sua vez, carregam os dados para o cérebro. O sistema é tão apurado nos tubarões que eles são capazes de captar apenas um milionésimo de volt na água do mar. Há até planos para criar “defletores de tubarão” usando ímãs, que distorcem o sentido elétrico dos bichos.

    Vários peixes elétricos vão ainda mais longe. Eles produzem seu próprio campo elétrico alinhando seus músculos como se eles fossem baterias paralelas (várias pilhas num rádio portátil maior, digamos). Ao entrar em contato com obstáculos ou outros animais, o campo elétrico se distorce, e o objeto é detectado.

    Aliás, é por isso que tais peixes não usam movimentos ondulantes para nadar – ficar retorcendo o corpo atrapalharia a formação do campo elétrico. Acredita-se que os peixes elétricos mais poderosos, aqueles que conseguem matar uma presa ou um agressor usando seu próprio campo eletromagnético, são animais que “aprenderam” a usar de forma mais agressiva seu antigo detector de obstáculos.

    A maravilha menos fácil de perceber nesse catálogo variado de criaturas com sexto sentido é o fato de que grande parte delas desenvolveu sua percepção elétrica de forma independente ao longo de milhões de anos de evolução. Nenhum dos ancestrais terrestres do ornitorrinco tinha essa capacidade; o mesmo acontece com os tubarões e os peixes elétricos, que estão separados evolutivamente há muito tempo e usam órgãos relativamente distintos para fazer serviços parecidos debaixo d’água.

    É o milagre da evolução convergente: ambientes parecidos acabam exigindo soluções semelhantes de criaturas cuja história não poderia ser mais diferente. Ou, como diria meu personagem favorito na série Jurassic Park, “Life finds a way”- a vida sempre dá um jeito.

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Reinaldo José Lopes

Bem-vindos a uma viagem pelos quase 4 bilhões de anos da história da vida na Terra. Este espaço é dedicado a explorar como a evolução forjou e ainda forja a variedade estonteante dos seres vivos, da mais modesta bactéria à complicada e fascinante linhagem humana. Meu nome é Reinaldo José Lopes, sou repórter da editoria de Ciência e Saúde do G1, e convido todos vocês a participarem dessa jornada imprevisível e maravilhosa.






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