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De volta para o passado
Faça um breve experimento mental: visualize um bando de leões caçando na Praça dos Três Poderes, enquanto uma manada de elefantes asiáticos calmamente pisoteia o gramado do Palácio do Planalto. (Tente não pensar no tipo de caça que os leõezinhos consumiriam naquele lugar tão aprazível, ou em quem os paquidermes poderiam acidentalmente pisar em seu passeio. Eu sei que chega a dar água na boca, mas segure o tchan.) Coisa de doido, certo? Quer dizer, todo mundo sabe que Brasília é uma selva, mas enfiar uma bicharada dessas por lá já é demais.
Só tem um porém: não precisaríamos mais do que rebobinar o calendário uns 10 mil anos -- menos que um piscar de olhos na história da Terra, ainda que pareça muito em termos humanos -- para perceber que a cena é bem menos absurda do que parece. Na época em que a Era do Gelo estava acabando de dar lugar ao nosso atual planeta tépido (o qual, em breve, deve acabar ficando ainda mais quente), o Brasil Central era uma espécie de universo paralelo da savana africana.
Os mastodontes, primos extintos dos elefantes, pastavam junto com cavalos selvagens e lhamas e eram caçados por ursos e dentes-de-sabre. Outros bichos gigantes e ainda mais inusitados, como preguiças terrícolas de 6 m de comprimento e tatus do tamanho de um Fusca, também eram freqüentadores assíduos do Plano Piloto. O nosso querido Planalto Central não era uma exceção. Porções substanciais do continente americano, dos EUA à Terra do Fogo, eram o lar desses e outros gigantes. E, se depender do polêmico plano de um grupo de biólogos da conservação e paleontólogos, pode voltar a sê-lo no futuro.
Acrescente a palavra ao seu vocabulário: rewilding. (Ainda não atinei com um equivalente bom em português. “Reselvagenização”? Feio pra burro.) Esse é o termo normalmente empregado para designar a proposta de Paul Martin, da Universidade do Arizona, C. Josh Donlan, da Universidade Cornell, e uma penca de outros pesquisadores.
É preciso reconhecer que coragem é o que não falta a esses sujeitos. Para sorte dos brasilienses, o plano do grupo por enquanto mira apenas a América do Norte, mas a lógica por trás dele se aplica com igual força ao cerrado brasileiro. Trata-se de trazer de volta ao continente americano a megafauna de grandes herbívoros e seus predadores igualmente avantajados.
A premissa inicial do plano é a culpa do homem pelas condições não muito invejáveis da megafauna no mundo. Martin e Donlan são partidários da hipótese do overkill, segundo a qual a chegada dos seres humanos modernos à América teria sido a principal responsável pelo desaparecimento dos gigantes do nosso continente. Esses bichos, que nunca tinham visto um caçador na vida, teriam virado presa fácil das lanças humanas e sido basicamente exterminados – de tal maneira que 75% dos mamíferos com mais de 45 kg da América teriam sumido em poucos milhares de anos. E hoje, como todos sabemos, bichos do mesmo tipo que sobraram em outros continentes estão à beira da extinção, encurralados pela caça e pela destruição de seu habitat e presas.
Por isso, os proponentes do rewilding querem usar terras hoje desocupadas e de baixo valor econômico no interior americano como arca de Noé para a megafauna que sobrou. Com isso, haveria uma espécie de backup desses bichos, caso sua população natural na África e na Ásia se extinguisse. Mas, mais importante ainda, a falta “antinatural” de mamíferos de grande porte nos ecossistemas abertos da América seria finalmente sanada, reconduzindo esses ecossistemas a uma condição mais próxima da original.
Vamos tentar deixar esse segundo ponto um pouco mais claro. Não dá para brigar com o lema “Extinção é para sempre”: algumas espécies, como os dentes-de-sabre e as preguiças gigantes, não têm mais exemplares vivos hoje nem equivalentes de nenhum tipo, e não podem ser trazidas de volta. Outras, como as lhamas, camelos, cavalos e mamutes, ainda contam com parentes próximos no mundo moderno, embora elas próprias tenham sumido. Finalmente, há espécies cuja população americana foi extinta, mas que ainda sobrevivem em outros lugares do mundo: é o caso dos leões (cuja distribuição chegava à Amazônia na Era do Gelo).
O critério de Martin e Donlan é trazer de volta espécies que sejam equivalentes ecológicos, embora não genéticos, dos gigantes que desapareceram. Ou seja, criaturas que tenham o mesmo papel que seus primos exterminados ocupavam em seus ecossistemas nativos.
Os defensores do rewilding argumentam, com razão, que os grandes herbívoros e carnívoros são engenheiros ambientais, cujas ações estruturam de forma saudável as relações ecológicas entre si mesmos e os outros seres vivos.
Os elefantes, por exemplo, abrem clareiras entre as árvores, promovendo o florescimento de inúmeros tipos de plantas. Um estudo feito com lobos, recentemente reintroduzidos no famoso parque nacional de Yellowstone, nos EUA, revelou que eles impedem que os veados comam árvores demais e acabam produzindo comida para carnívoros menores ao abandonar parte das carcaças dos bichos que capturam. Aqui mesmo no Brasil, uma pesquisa envolvendo onças sugere que os felinos promovem mais diversidade de espécies entre os pequenos predadores, funcionando como “moderadores” da competição ecológica abaixo deles.
Para os cientistas, é como se os ambientes americanos “sentissem saudade” da megafauna. Trazê-la de volta ajudaria a restaurar relações ecológicas saudáveis depois de milhares de anos. Há, por exemplo, o caso das antilocapras, herbívoros das pradarias da América do Norte que estão entre os mamíferos mais rápidos do mundo, chegando a alcançar 100 km/h na corrida. Nenhum predador moderno é tão veloz; então, pra que correr tanto? Acontece que as antilocapras evoluíram sendo perseguidas pelo guepardo americano, um bicho que provavelmente era tão rápido quanto os guepardos africanos e asiáticos (hoje os animais terrestres mais rápidos do planeta) e seria o único a conseguir competir com as antilocapras na carreira.
Os proponentes do rewilding pretendem começar o teste de suas idéias em experimentos pequenos e controlados, nos quais propriedades rurais modestas serão povoadas com a megafauna e as respostas do ambiente americano aos recém-chegados serão avaliadas. Os pesquisadores defendem que os benefícios econômicos podem se tornar tão importantes quanto os ambientais na empreitada, uma vez que o ecoturismo -- a oportunidade ver os bichões livres em seu novo habitat – certamente atrairia muita gente.
É simplesmente cedo demais para dizer se eles têm razão. O desejo de tentar, pelo menos, parece genuinamente nobre. Mas não é impossível que os pressupostos do projeto sejam, em si mesmos, falhos. Para começar, pelo menos em alguns lugares do continente há indicações de que os humanos recém-chegados tiveram pouco ou nada a ver com o fim da megafauna.
No Brasil, por exemplo, os sítios arqueológicos deixados pela ocupação inicial do Homo sapiens praticamente não contêm ossos de grandes mamíferos caçados, e há quem questione seriamente a extensão da caça praticada na própria América do Norte contra mamutes, mastodontes, cavalos e companhia. Outros pesquisadores apostam que a mudança climática que encerrou a Era do Gelo é uma culpada mais provável pela extinção da megafauna, ao alterar os ambientes que lhe davam sustento com a chegada de mais calor e umidade.
É claro que o peso na consciência pela extinção dos gigantes americanos não precisa ser a única razão para o rewilding; salvar as espécies modernas pode muito bem ser suficiente. O problema maior talvez seja que os ecossistemas americanos já passaram por muita coisa nos últimos 10 mil anos. Bem ou mal, as relações ecológicas se reconstruíram sem a presença dos grandalhões -- até levarem outro tranco nada desprezível com a revolução da tecnologia agrícola do século passado, que acabou transformando as pradarias norte-americanas e o nosso cerrado em imensos celeiros.
Por isso mesmo, não há garantia nenhuma de que os grandalhões de hoje, ao encarar um ambiente modificado e já muito combalido, acabem tendo o impacto de simples espécies invasoras. E, nesse caso, que chance teriam um veado-campeiro ou uma onça-pintada diante de leões e elefantes? Com a melhor das intenções, os biólogos da conservação poderiam estar violando o juramento hipocrático que deveria nortear todos os seus esforços: se não pode fazer o bem, pelo menos não cause o mal. Existe, finalmente, o argumento humano: se estamos dispostos a investir tanto na preservação da megafauna, não é melhor fazê-lo em suas regiões de origem, onde as populações pobres, em parte por necessidade, em parte por ignorância, são as que mais precisam de recursos para acabar com a matança?
Algumas das questões acima talvez possam ser respondidas com mais e melhor ciência. Até lá, cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém – por mais que eu adore imaginar o estrago que um elefante faria no plenário do Senado.