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Histórias que a cegonha não contava
Uma queda repentina do queixo provavelmente seria o efeito mais provável daquele gráfico de Powerpoint sobre um desavisado. O pesquisador britânico Peter Lees Pearson, hoje professor do Departamento de Genética e Evolução da USP, estava mostrando como a fertilidade das mulheres varia com a idade. Lá para os lados da pré-menopausa, nada de surpreendente: quase nenhum óvulo fecundado acabava terminando em nascimento. A maluquice, no entanto, estava na outra ponta do gráfico. Sabe qual a proporção dos óvulos fecundados de moças no auge de seu potencial reprodutivo (na casa dos 20 anos) que acabam virando um bebê? Metade, se tanto.
Encaremos os fatos: como diz um certo blogueiro mala-sem-alça, a fertilidade do Homo sapiens não é lá uma Brastemp. OK, a camisinha, a pílula e outros apetrechos de controle da natalidade deram uma bela mãozinha para desacoplar o ato sexual humano de suas conseqüências reprodutivas, mas o fato é que as duas coisas já andavam bem separadas por natureza entre nós. Os livros de auto-ajuda podem até estar certos quando dizem que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor, mas o que eles esquecem de ressaltar é que nenhum dos lados dessa equação faz amor ou sexo só por causa dos possíveis bebês lá na frente.
Não se trata de mera curiosidade, muito menos de invenção da minha mente poluída, pudico leitor. Esse jeito tipicamente humano de lidar com a própria fecundidade ajuda a explicar diversos outros aspectos da nossa esquisitice comportamental, principalmente quando somos comparados com os nossos parentes mais próximos, os grandes macacos. E, se você duvida, sugiro que acompanhe essa saga sensual nos parágrafos a seguir.
Comecemos do básico, só pra variar. Você que é casado, responda rápido: em que dias do mês lunar sua mulher está no período fértil? (Praticantes do método anticoncepcional da tabelinha têm uma vantagem competitiva desproporcional nessa área e são gentilmente convidados a ficar de boca fechada.) Não sabe, não é? Não tem a menor idéia?
Pois um daqueles chimpanzés geniais que aprenderam a falar em língua de sinais não teria a menor dificuldade em responder – desde que, é claro, a gente trocasse a palavra “mulher” por “fêmea”. (É que esses bichos são, em geral, bastante promíscuos, embora haja casos isolados de curtos “namoros” entre um macho e uma fêmea). Nosso símio faria rapidamente os sinais de “inchado” e “rosado” com as mãozinhas. “Ah, ela está fértil quando a genitália está inchada e rosada”, concluiria você – raciocínio correto e bastante óbvio. “Que fácil, hein, Seu Chimpa.”
É claro que nós não temos essa mesma mamata. Existem alguns indícios intrigantes de que as fêmeas da nossa espécie ficam particularmente atraentes quando estão no período fértil – algo que os machos humanos poderiam perceber ao menos inconscientemente e que poderia favorecer mais relações sexuais nessas ocasiões. Mas é muito pouco. Quando um homem e uma mulher vão para a cama, a possibilidade de fecundação é quase sempre, com o perdão da expressão, um tiro no escuro.
O que acontece é que as nossas fêmeas deram um fim ao inchaço rosado nos países baixos, por meio de alguma modificação genética ainda pouco compreendida. Como se trata de uma região anatômica que normalmente não se fossiliza, não temos a menor idéia de quando essa mudança aconteceu nos últimos 7 milhões de anos (mais ou menos o tempo transcorrido desde que a nossa linhagem se separou da dos chimpanzés). Mas o fato é que aconteceu, e uma série de conseqüências extremamente interessantes parece decorrer dela.
Pense comigo. Se para um macaco é moleza saber qual o melhor momento para levar uma fêmea para trás da moita e obter um herdeiro meses depois, um ancestral humano (ou hominídeo, como dizem os cientistas) não tinha tanta sorte. Para garantir as chances de passar seus genes adiante, ele seria obrigado a fazer um esforço mais continuado com sua parceira, digamos. E isso virou uma arma e tanto na mão das fêmeas: elas podiam exigir dedicação, e até exclusividade, de seus parceiros.
Esse modelo mais ou menos grosseiro é, na verdade, um resumo bastante aceitável da origem da monogamia entre os seres humanos. Embora casos extraconjugais sempre continuassem ocorrendo, passou a ser infinitamente mais difícil para um homem dar a atenção continuada necessária à produção de um herdeiro para mais de uma parceira ao mesmo tempo.
Antes que você proteste e tente desfiar um rosário de civilizações “primitivas” nas quais os homens tinham ou têm mais de uma esposa, gostaria de lembrar um pequeno detalhe. Quase sempre, a poligamia aparece em sociedades que já dominaram a agricultura, e nas quais há desigualdade social suficiente para que um sujeito consiga monopolizar mais recursos que os outros, virar chefe e, assim, monopolizar também as garotas, por bem ou por mal. Acontece que os nossos ancestrais mais remotos, e literalmente todos os povos humanos antes de uns 10 mil anos atrás, eram caçadores-coletores – cujas sociedades são, em geral, igualitárias e, pelo menos nominalmente, sem haréns.
De um jeito ou de outro, ao ocultar seu período fértil, as mulheres humanas deram novo impulso ao sexo sem função reprodutiva. Com vistas aos futuros rebentos, homem e mulher passaram a usar o ato sexual tanto como forma de fazer filhos como, na maioria das vezes, como ferramenta para cimentar a unidade emocional e social do casal.
Não é nem um pouco impossível que isso tenha tirado outro peso biológico das costas das mulheres. Afinal, ao longo do tempo evolutivo, seu organismo passou a ficar menos e menos sobrecarregado com a pressão de produzir um filho logo. Afinal, o cio tinha virado coisa do passado – e o marido não iria a lugar nenhum mesmo... Isso, junto com as décadas de vida reprodutiva que a nossa espécie já tinha, pode ter diminuído a força da seleção natural sobre a fertilidade. Não era mais preciso que toda fecundação resultasse em nascimento, desde que o casal sempre pudesse tentar o feito de novo no mês seguinte.
E assim, por mais que as fecundações sejam raras e, mesmo quando acontecem, nem sempre tenham como resultado um pimpolho, aqui estamos nós – todos os 6 bilhões vivos hoje, fora os incontáveis que já nasceram e morreram. Deixar descendência é ótimo, mas a nossa biologia deixa poucas dúvidas sobre outro fato: não fazemos amor só pra isso.