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Visões da Vida

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    A invasão das baratas zumbis

    Eu diria, sem muito medo de errar, que poucas ocasiões são capazes de levar as pessoas a sentirem pena de uma barata. Afinal, nada traz mais deleite ao ouvido masculino humano (e horror ao ouvido feminino humano) do que escutar aquele barulhinho de barata sendo esmagada por chinelo de dedo. Mas sou capaz de apostar que você sentiria ao menos um pouco de compaixão ao saber do que acontece com certas baratas. Com uma ferroada certeira, elas são transformadas em zumbi e devoradas vivas. Bem devagar.

    A responsável por transformar a criaturinha em personagem de filme B é outro inseto, a vespa Ampulex compressa, que certamente mereceria o apelido de “Alien” (é, aquele da série com a Sigourney Weaver). A vespa usa duas ferroadas certeiras para selar o destino de sua vítima. A primeira deixa a barata paralisada por um instante. A segunda, ainda mais precisa, parece agir apenas sobre uma subdivisão do cérebro da barata, eliminando seu reflexo de fuga. Ela volta a ser capaz de se mexer – só não tem mais a motivação necessária para fazê-lo sozinha.

    O que acontece então? Os cientistas israelenses que estudam a Ampulex compressa dizem que a vespa passa a conduzir a barata “como uma pessoa que puxa um cachorro pela coleira”.

    A coleira, no caso, são as antenas do inseto, que é arrastado até o ninho da vespa. O parasita bota um ovo na barriga da barata, do qual emerge uma larva. A larva, por sua vez, penetra no ventre da barata. E mastiga, mastiga e mastiga, devorando lentamente a barata zumbi ainda viva durante oito dias, até formar um casulo e finalmente emergir da cavidade corporal do pobre bicho como vespa adulta, cerca de quatro semanas depois.

    Ufa. Sinceramente espero que as suas mãos estejam suando frio – as minhas estavam quando li uma versão da história acima pela primeira vez. O fato é que ela ilustra com perfeição aterradora um dos fatos mais comuns e, ao mesmo tempo, menos conhecidos da relação parasita-hospedeiro. Estamos acostumados a imaginar que um parasita – o fungo que causa frieira nos pés, digamos – só manipula a parte “não-pensante” do nosso organismo, sugando nosso sangue ou devorando outro tecido. Nada mais longe da verdade.

    Um olhar mais detalhado sobre vários tipos de parasita mostra que eles são mestres em ludibriar o sistema nervoso de suas vítimas, às vezes com precisão de encher de inveja o mais habilidoso neurocirurgião humano. Aliás, não pense que a nossa orgulhosa espécie esteja livre desse tipo de manipulador, como pretendo mostrar nos parágrafos abaixo.

    Tudo que sobe...
    A habilidade maquiavélica da Ampulex compressa é sem dúvida espantosa, mas pelo menos trata-se de um jogo, digamos, igual – um inseto manipulando outro. Infinitamente mais maluco é imaginar criaturas que nem têm sistema nervoso controlando o comportamento de animais complexos. Bem, acho que essa é a minha deixa para apresentar o fungo Corydceps. Tal como outros fungos, ele se propaga por esporos. Se não parece emocionante, pergunte aos insetos que são infectados pelo Corydceps.

    Acontece que o parasita insufla em suas vítimas uma paixão pelas alturas. O malfadado inseto cujo organismo for invadido pelo Corydceps fica com um comichão irresistível para escalar até o topo o ramo de planta onde se encontrar no momento. E aí a magia – negra, claro – acontece. O inseto morre e, do seu corpo, brota uma delgada haste de fungo, pronta para salpicar seus esporos sobre uma ampla área. É isso mesmo que você entendeu: o fungo força seu hospedeiro a subir para ganhar vantagens no seu espalhamento para novos hospedeiros.

    Eu poderia continuar a contar essas histórias indefinidamente – o verme semi-aquático que invade gafanhotos e os leva ao suicídio (os bichos saltam para dentro de piscinas, por exemplo) para poder voltar à água, e por aí vai. Mas prefiro ir direto ao prato principal. Neste exato momento, um ser microscópico e de uma só célula pode estar influenciando seus pensamentos. Falo do parasita conhecido como Toxoplasma gondii, o causador da toxoplasmose.

    Segundo as memoráveis palavras de um parasitologista brasileiro cujo nome não revelarei aqui, “tudo o que o Toxoplasma quer é transar nas tripas de um gato”. Explica-se: o microrganismo infecta grande variedade de mamíferos e aves, mas os felinos são considerados seu hospedeiro “definitivo”. Isso porque é só no sistema digestivo dos gatos que o T. gondii é capaz de se reproduzir sexualmente. Nos outros hospedeiros, ele ainda é capaz de se reproduzir de forma assexuada, dividindo suas células em clones iguais, mas o sexo parece ser uma parte essencial de seu ciclo de vida.

    Como o parasita é passado para as fezes dos felinos, o único jeito de ele pular de um gato para outro seria o contato dos bichos com os dejetos dos vizinhos. Certo? Não exatamente. Imagine que outro animal – um rato, por exemplo – acabe tendo contato com os cistos de T. gondii oriundos das fezes felinas, bebendo água contaminada. Eis que outra espécie agora carrega o microrganismo em seu corpo.

    Ora, o micróbio que passasse por essa situação teria uma vantagem óbvia se conseguisse sobreviver a essa situação inusitada e voltar para as tripas de algum gato. De que jeito? Levando seu novo hospedeiro a ser engolido pelo hospedeiro preferencial. Manipular o infeliz ratinho para que ele perca o medo dos bichanos parece uma boa pedida para alcançar esse objetivo.

    Acredite ou não, é exatamente isso que o causador da toxoplasmose parece fazer. Evidências experimentais recorrentes mostram que roedores infectados com o parasita perdem a reação inata de medo que normalmente demonstram diante do cheirinho de urina de felino. Também se tornam mais dados a explorar o ambiente e menos medrosos em geral. Imagens funcionais do cérebro dos ratinhos sugerem que o T. gondii está agindo de forma específica sobre a amígdala (não confundir com a da garganta, por favor). É a região cerebral associada fortemente ao aprendizado emocional.

    Seres humanos também são freqüentemente infectados com o parasita. Os dados ainda são preliminares, mas há indícios de que os portadores do microrganismo são mais destemidos e/ou descuidados que a média das pessoas. Mais intrigante ainda, uma mulher que carrega o T. gondii em seu organismo e está grávida vê aumentarem suas chances de ter um filho homem (enquanto em geral 51% dos nascimentos é de meninos, as mães com a criatura em seu organismo dão à luz garotos em 72% dos casos). E, como estamos todos carecas de saber, os machos de nossa espécie são os mais dados a fazer coisas corajosas, ou, vendo a coisa por outro ângulo, estúpidas. Pode ser só coincidência, claro – mas eu não apostaria nisso.

    Dá quase para ficar com dó do pobre T. gondii – alguém precisa avisá-lo de que seres humanos correm pouco risco de ser devorados por leões, tigres e onças, e que portanto toda essa trabalheira bioquímica dele nos nossos cérebros provavelmente não vai dar em nada.

    Todos esses casos de dança macabra entre parasita e hospedeiro podem parecer mera curiosidade, mas são muito mais do que isso. A sutileza da manipulação mental empregada pelos vilões das histórias acima pode, decerto, ensinar um bocado sobre como funcionam os sistemas nervosos de animais e humanos, e até ajudar a combater pragas. Acima de tudo, porém, elas revelam como é vã a visão dos seres vivos como uma escada hierárquica, com criaturas mais “evoluídas” (feito nós) no topo e outras “primitivas” rastejando lá embaixo.

    O T. gondii não precisa de cérebro nem de órgãos dos sentidos – aliás, não precisa nem de um corpo macroscópico – para manipular a criatura de mente mais complexa do Universo conhecido. Se esse não é um dos argumentos mais acachapantes em favor de uma humanidade mais humilde, eu não sei qual seria.

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    PS – Meus mais sinceros agradecimentos ao jornalista científico americano Carl Zimmer, o rei dos parasitas (no bom sentido!), pela inspiração providencial que seus textos trouxeram para a coluna desta quinzena.

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