Pensamento e memória?
Os antigos escandinavos costumavam retratar o chefão de seus deuses, o caolho Odin, com dois corvos pousados nos ombros. A missão dos bichos era sobrevoar os Nove Mundos da mitologia nórdica, observar tudo o que estava acontecendo e trazer as notícias de volta para o deus, em cujo ouvido eles cochichavam as fofocas. O nome da dupla? Hugin e Munin, ou seja, “pensamento” e “memória” em islandês antigo. Pode ter sido clarividência ou um simples chute bem-dado viking, mas o fato é que todos os corvos do planeta, e não só os asseclas de Odin, talvez mereçam os títulos de Hugin e Munin. (Veja uma representação do trio abaixo)

Esqueça por um momento os chimpanzés e os golfinhos: as estrelas em ascensão dos estudos sobre a inteligência animal são essas aves de fama sombria e plumagem idem. Aqui, no entanto, vale a pena se despir de alguns preconceitos. Apesar do negrume das asas e do gosto por carniça, os corvos estão entre as criaturas mais brincalhonas e curiosas da Terra. Essas características, associadas a uma vida social complexa e cheia de malandragem, faz com que eles se comportem – por mais bizarro que soe a afirmação – um pouco como primatas com penas.
Não é pouca coisa, convenhamos. Se as pistas que os cientistas estão seguindo sobre a estrutura da mente corvídea forem mesmo quentes, estaremos cada vez mais próximos de escrever o que poderíamos chamar de “receita-padrão” da inteligência – as características cruciais para que essa qualidade relativamente rara no mundo animal acabe aparecendo.
CabeçudosAs evidências de que há algo de muito especial acontecendo na cabeça dos corvos são multifacetadas. Vamos começar com o básico: como era de esperar, o cérebro dos corvídeos tem dimensões avantajadas para pássaros do tamanho deles.
Há inúmeras maneiras de computar o grau de encefalização (grosso modo, a importância proporcional do cérebro perto dos outros órgãos) de uma espécie, nem todas muito confiáveis, mas nesse quesito os corvos parecem chegar perto de grandes macacos e cetáceos (o grupo dos golfinhos e baleias). Além do tamanho bruto e ponderado, o cérebro deles também apresenta razoável complexidade na área equivalente ao nosso córtex – a área superficial do órgão, considerada a sede da consciência e das funções mentais mais “elevadas”.
Massa encefálica à parte, as pessoas observam sinais de inteligência entre corvos e assemelhados desde tempos imemoriais. Eles são tradicionalmente considerados bichos “sábios” em muitas culturas, o que explica o mito de Hugin e Munin ou as histórias de certas tribos do Pacífico norte-americano – entre elas, o corvo não só é um trickster (um trapaceiro legendário, meio como o nosso saci-pererê) como também é venerado como o criador do mundo.
Atribuir sabedoria divina aos bichos é claramente um exagero, mas os corvos são capazes de feitos cognitivos um bocado interessantes. Como relatam Bernd Heinrich, da Universidade de Vermont (EUA), e Thomas Bugnyar, da Universidade St. Andrews (Reino Unido), a principal preocupação de um corvo adulto é vencer a constante competição por comida em seu ambiente natural. E, para isso, eles lançam mão da mesma estratégia comumente empregada por suas contrapartes mitológicas: a trapaça.
Trata-se de uma conseqüência lógica do fato de que os corvos gostam de recolher comida e escondê-la em inúmeras pequenas “despensas”, cuidadosamente camufladas, para consumo futuro. Isso pode ser uma estratégia de um casal de corvos, tentando monopolizar o alimento encontrado no seu território. Por outro lado, os corvos que não formaram uma relação conjugal, incluindo indivíduos jovens e “solteirões” mais idosos, ficam o tempo todo de olho nas “despensas” dos casais, tentando arrombá-las quando eles estão distraídos ou mesmo querendo tomá-las pela força, quando se juntam em bandos. Finalmente, as aves também precisam trapacear para obter a comida – que muitas vezes se resume a carniça – de carnívoros maiores, que caçaram a presa originalmente.
Eu sei que você sabe que eu seiAssim, os bichos precisam tentar enganar membros de outras espécies e seus companheiros de espécie o tempo todo; ao mesmo tempo, precisam estar sempre atentos para não serem enganados. Heinrich e Bugnyar tiveram a idéia de testar repercussões desse cenário na maneira de “pensar” dos bichos. Será que eles eram capazes de imaginar o que outro corvo estava pensando?
A resposta veio de um experimento que a gente poderia apelidar de “a gaiola do bisbilhoteiro”. A dupla colocou um dos corvos solto num aviário, com comida à vontade. Rapidamente, o bicho se pôs a organizar suas despensas ocultas. Perto dela, foram colocadas duas gaiolas. Uma tinha uma “janelinha” através da qual outro corvo conseguia ver seu companheiro escondendo as iguarias. A outra tinha uma cortina por cima dessa janela, embora o corvo que escondia a comida ainda pudesse ouvir os barulhos nada discretos emitidos pelo outro companheiro.
Depois dessa primeira fase, eles puseram o corvo que havia colocado o alimento nos esconderijos secretos lado a lado com cada dos outros participantes do experimento, um de cada vez. E o que aconteceu é que, quando confrontado com o corvo “bisbilhoteiro”, ele tendia a recolher rapidamente as guloseimas, para evitar ser roubado – embora nem se desse ao trabalho de fazer o mesmo quando a outra ave estava presente. A explicação mais provável é que o bicho “sabia que o outro sabia” ou “sabia que o outro não sabia” onde a comida estava – uma capacidade raríssima entre animais. Existe muita controvérsia sobre esse fenômeno, mas há quem diga que nem chimpanzés, nossos primos-irmãos evolutivos, possuem tal capacidade.
E, falando em chimpanzés, os primeiros animais não-humanos cujo uso de ferramentas foi comprovado, é bom lembrar que os corvos também são capazes de fabricar e utilizar instrumentos. Nesse quesito, o campeão parece ser o corvo-da-nova-caledônia (
Corvus moneduloides), nativo da Oceania.
Na natureza, eles modificam galhos para desenterrar larvas nutritivas da casca de árvores. Em laboratório, pesquisadores da Universidade de Oxford deram apenas arames retos aos corvos que você vê nas fotografias desta coluna – e os bichos aprenderam a dobrar o arame na forma de ganchinhos, usados então para extrair pequenos baldes cheios de carne de porco do interior de um aparato – obviamente com a ajuda do bico.

Finalmente, Heinrich e Bugnyar relatam uma situação no mínimo curiosa envolvendo outro experimento com comida. Eles amarram um pedaço de carne a um fio comprido, que por sua vez foi dependurado de um galho. Como os corvos não são beija-flores e não conseguem ficar parados voando, não havia maneira de eles simplesmente arrancarem a comida em pleno vôo. Era preciso ficar empoleirado no galho e ir subindo o fio devagar, prendendo-o pedaço por pedaço debaixo da pata até que a carne finalmente chegasse ao alcance.
Ora, os corvos submetidos a essa prova, diz a dupla, simplesmente ficaram olhando o fio com a carne por alguns minutos – e, de repente, empoleiraram-se no galho e fizeram tudo certinho, em questão de segundos. Era como se tivessem analisado a situação, planejado sua ação “racionalmente” e só então atuado.
Lições aprendidasÉ sempre complicado atribuir, sem a devida cautela, capacidades e intenções humanas a outras espécies, e o caso dos corvos ainda precisa ser estudado com mais detalhes, sem dúvida. No entanto, é bem possível que ele nos traga um conjunto importante de lições sobre a capacidade flexível de resolução de problemas que nós costumamos apelidar de inteligência.
A primeira tem a ver com o próprio ciclo de vida dos corvos: são bichos que crescem relativamente devagar, com infâncias longas e espaço de sobra para atividades que só poderiam ser classificadas como brincadeiras. Antes de esconder comida para valer em despensas ou roubar comida de predadores, os jovens corvos brincam de esconder objetos e atazanam lobos, linces e outros carnívoros aparentemente apenas pelo prazer de fazer isso – mas, ao que tudo indica, essas atividades os ajudam a desenvolver talentos cruciais para o futuro.
No entanto, parece que o grande motor da inteligência corvídea é a necessidade de simular cenários e se proteger contra coisas que podem ser imprevisíveis, como o comportamento de um predador ou o de um companheiro de espécie. Para conseguir conceber a mente de outra criatura, o único jeito é refinar a própria mente. Quem diria que um pássaro negro comedor de carniça seria capaz de inventar a imaginação, tal como nós?
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Mais um daqueles rápidos pós-escritos: fiquei estarrecido quando um leitor anônimo acusou este colunista de racismo apenas pela referência à cor das penas dos corvos. Deveria ser óbvio até para uma criança, mas é CLARO que não há nada de racismo nisso. Só pra usar um pouco de psicologia evolutiva, tanto bebês negros quanto brancos têm medo do escuro, e até hoje nunca vi ninguém chamar os bebês de preconceituosos. Animais de cor muito escura, ainda mais se carnívoros, naturalmente geram medo nas pessoas, independentemente da cor de pele delas.