Arbusto do Éden
Sou capaz de apostar que a figura acima é uma das primeiras que vêm à sua cabeça quando você ouve ou lê a expressão “evolução humana”. Incontáveis versões dessa imagem (a maioria delas menos engraçadinha, é verdade) foram reproduzidas em livros didáticos, pôsteres e obras antigonas de divulgação científica, e o resultado só pode ser classificado como desastroso. Não estou falando só do fato de que ela reflete uma visão caricaturesca, cheia de preconceitos do século 19, sobre como nossos ancestrais andavam e se comportavam. Ela também está factualmente errada. Não existe uma escadinha evolutiva que conduza a nós. Existe um arbusto, e nós somos um dos galhos.
Para ser um pouco mais claro, o suposto fracasso em achar o “elo perdido” entre humanos e demais primatas, bem como as dúvidas que ainda pairam sobre a relação exata entre os diversos membros extintos da nossa linhagem e nós, podem muito bem não ser uma coisa ruim do ponto de vista científico. Esses dois pontos são muito salientados pelos velhos criacionistas e sua versão repaginada, os proponentes do chamado design inteligente, que recusam a validade científica da teoria evolutiva. No entanto, é preciso ver esses elementos como triunfos, e não como fraquezas. Eles são exatamente o que se espera – e o que se vê – na trajetória evolutiva de qualquer espécie. E nós estamos nos encaixando nesse quadro.
No curto prazoA imagem refletida na “caminhada evolutiva” dos velhos pôsteres é a de uma linha ininterrupta que leva dos australopitecos – criaturas que surgiram há cerca de 4 milhões de anos – rumo ao
Homo habilis, primeiro membro do nosso gênero, depois ao
Homo erectus, ao chamado
Homo sapiens arcaico e, finalmente, ao ápice da evolução, nós, o
Homo sapiens moderno. Alguns dos problemas com essa visão exageradamente arrumadinha são conceituais, outros factuais. Vamos por partes.
Ninguém discute a criatividade e o poderio da raça humana moderna diante das outras espécies de seres vivos, mas desenhar a evolução dos hominídeos (nome tradicionalmente empregado para designar a nós e a todos os nossos parentes extintos mais próximos do que os chimpanzés) como uma estrada em que todos os caminhos levam ao
Homo sapiens é forçar a barra.
Os seres vivos existem no curto prazo: são as pequenas mudanças casuais em sua estrutura genética que, acumuladas, acabam levando a grandes transformações evolutivas. Para isso, eles precisam ser bem-sucedidos no imperativo “crescei e multiplicai-vos” aqui e agora. Nenhum australopiteco passou a vida impaciente, sonhando com “o que você quer ser quando evoluir” (
Homo habilis, ou
Homo sapiens): como diria o Skank, mil acasos levaram alguns dos descendentes dele (não todos, é bom frisar!) até nós.
É exatamente por causa disso que a maior das falácias criacionistas – formulada na velha pergunta “Se nós evoluimos dos macacos, por que ainda existe essa macacada toda por aí” - é facilmente derrubável. Não estou falando nem do detalhe importante de que descendemos de uma forma extinta de primata, e não de algum dos macacos vivos hoje. O que acontece é que virar bípede, ficar pelado e fabricar ferramentas complexas funcionou para a nossa linhagem, mas os outros modos de vida possíveis para um primata – beber seiva de árvores, como alguns sagüis, ou mastigar toneladas de folhas e caules, feito os gorilas – continuaram viáveis. E, portanto, os outros primatas continuam por aqui, e não pararam no tempo de nenhuma forma significativa.
Caminhos que se bifurcamA demonstração mais eloqüente de que isso aconteceu são os múltiplos galhos do nosso arbusto evolutivo que surgiram e prosperaram lado a lado com os prováveis ancestrais diretos do homem. Supostamente, a invenção das ferramentas teria sido um ponto de virada na nossa carreira, como representado de forma antológica pelo filme "2001 – Uma Odisséia no Espaço". No entanto, mais ou menos na época em que os primeiros
Homo se aventuravam como criadores de instrumentos, os chamados australopitecíneos robustos – normalmente classificados no gênero
Paranthropus – simplesmente mandaram tudo às favas e foram comer... raízes duras.
O crânio dos
Paranthropus parece o de alguém que resolveu fazer um corte de cabelo moicano no próprio osso. Ele é encimado por uma crista óssea que ajudava a ancorar poderosos músculos mastigatórios, os quais desciam por bochechas alargadíssimas. Muita gente acredita que a linhagem humana prosperou graças ao uso cada vez mais freqüente de alimentos altamente nutritivos e fáceis de mastigar, que teriam turbinado o crescimento do cérebro. Mas os
Paranthropus representam um passo na direção justamente oposta. Viraram especialistas em comer vegetais duros e fibrosos. E sobreviveram por cerca de 1 milhão de anos.
Talvez o mesmo fenômeno, apenas um pouco mais sutil, aconteça com outros membros do gênero Homo, como os
Homo rudolfensis (mais ou menos contemporâneos do
Homo habilis) ou os neandertais. Em quase todos os grupos de animais, incluindo mamíferos de grande porte como nós, a evolução de uma linhagem tende a se dar com o aparecimento de um número considerável de espécies aparentadas, como os tigres, leões e onças (gênero
Panthera). entre os felinos. É notoriamente complicado distinguir entre um e outro com base apenas nos fósseis, mas sabemos que, no mundo real, esses grupos de espécies atuam em nichos ecológicos que são ligeira mas significativamente diferentes. Diferentes, repito: nem melhores, nem piores.
A arte de caminharÉ bem provável que um fenômeno parecido esteja obscurecendo a nossa percepção sobre a origem da característica que define a nossa linhagem: o bipedalismo, a capacidade de andar com duas pernas. O problema aqui é o estado fragmentado dos fósseis e a proximidade deles no tempo. Um dos principais candidatos a primeiro hominídeo e primeiro primata bípede é o
Sahelanthropus tchadensis, cujo crânio, provavelmente com pouco mais de 6 milhões de anos, você vê abaixo.

Também com cerca de 6 milhões de anos, o
Orrorin tugenensis (cujo fêmur acinzentado você vê no centro da figura abaixo, circundado pelos ossos equivalentes de outros primatas extintos e atuais) é o outro grande concorrente a primeiro hominídeo. Os dois seriam bípedes, embora o
S. tchadensis dependa de uma característica indireta para ser classificado assim (a posição da abertura de seu crânio que leva ao pescoço), porque seus membros não foram preservados. Há quem diga que ambos os bichos possuem características estranhamente “à frente de seu tempo”, que não batem com sua inclusão entre os hominídeos tradicionais. Outros chegam mesmo a questionar o status de bípede dos dois.

De novo, talvez a confusão seja só o esperado. Não é inconcebível que o aparecimento do bipedalismo tenha sido acompanhado de uma mini-explosão evolutiva. Nela, primatas diferentes, talvez com origens relativamente distantes entre si, podem ter explorado de formas ligeiramente distintas as possibilidades oferecidas pelo novo modo de vida. (Quais seriam essas oportunidades? Ainda não sabemos. A velha idéia de que viramos bípedes para desbravar o ambiente aberto da savana africana caiu por terra quando os paleoantropólogos viram que os hominídeos mais antigos viviam em matas mais ou menos fechadas.) É natural que seja difícil distinguir quem é quem.
O que não se pode questionar é a relativa completude do registro fóssil que conduz de grandes macacos parecidos com os atuais chimpanzés até os paulistanos – e os britânicos, e o chineses – modernos. A linha reta não existe, mas vemos antecedentes claros e graduais de características como o nosso cérebro volumoso, as proporções do nosso corpo, o tamanho modesto dos nossos dentes.
Pode ser que nunca tenhamos dados suficientes para reconstruir com clareza cada passo, mas pode ser também que seja melhor assim. O modelo do arbusto confunde um pouco, mas também traz perspectiva e reconduz a humanidade ao labirinto luxuriante de ramos – todos com valor, todos com uma história. Há grandeza nessa visão da vida.
-----------
Pós-escrito rapidíssimo: esta foi minha terceira e última coluna da série sobre os elos transicionais na evolução dos vertebrados. Obrigado a todos os que me acompanharam até aqui, e voltamos na semana que vem com nossa programação normal – embora, claro, esse assunto fascinante ainda deva nos dar pano para manga no futuro.
E outro pós-escrito: atendendo a pedidos dos leitores, encontrei um arbusto genealógico relativamente completo e atualizado dos hominídeos. Clique
aqui para vê-lo.